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ZIRIGUIDUM E O ESCAMBAU *

Arrasto meu chinelo nas areias do Laranjal
Sem pressa de chegar, sem nada pra fazer, sem ela
Nas batidas do sul, meu ziriguidum e o escambau
Sou parte da cidade (procurando uma costela)
Pelos poros da pele um pouco de amor extra-oficial
Canto na rua, conto as estrelas, acendo uma vela!

Arrasto meu chinelo nas calçadas do Areal
Sem nunca encontrar, sem verso pra rimar com ela
Nas levadas do sul, meu ziriguidum e o escambau
Sou aparte na idade (preto e branco na aquarela)
Pelos pomos da pele um pouco de amor é o ideal
Canto pra lua, contando às estrelas minha novela!

Enquanto canto à toa, na lagoa o ziriguidum
Ninguém rega o reggae, o rock enrola e só jaz o jazz
Não me incomoda, tô fora de moda, sou só mais um
Assim sem mais nem menos, quanto menos assim no mais...

Arrasto meu chinelo muito longe da capital
Sem nunca me encontrar, sem medo de errar, sem ela
Nas cantigas do sul, meu ziriguidum e o escambau
Sou arte na cidade. . .(meu conforto, minha cela)
Pelos pólos da pele um pouco de amor não nos cai mal
Canto na tua, contando em tê-la, guria tão bela!


* Essa letra escrevi especialmente para o Peixoto (Cardo Peixoto) em 2004. Ele musicou e chegou a apresentá-la em seu espetáculo “Batuque sem trégua” no Teatro Sete de Abril.

ARMADILHAS DO TEMPO *

Já revirei ampulhetas no rastro de uma outra vida
Já rabisquei calendários à sombra do que não fomos
Enquanto as noites embalam quem ainda teme a partida
A projetar nostalgia sem refazer velhos rumos!

Já atrasei meus relógios, deixei lembranças à solta
Já me perdi nos horários fazendo igual todo instante
Enquanto as noites não param pra esperar quem não volta
A samambaia murchando, tanta poeira na estante...

Amor não espere que o tempo espere nós dois
O ontem já foi amanhã, toda flor já foi grão
Vamos fugir do destino e inventar um depois
Num trem pro futuro nas linhas da palma da mão!

Já percorri os minutos num coração de criança
Já fiz das fotos antigas o meu espelho secreto
Enquanto as noites se igualam pra quem só vive a esperança
O olhar vestindo a penumbra... (ninguém e nada por perto!)


* Uma das primeiras parcerias minhas com o “Cumpadre Peixoto”, construída em 2003. Ficou bem interessante, certamente ainda será editada e chegará ao público. Ao menos eu espero.

FEITIÇO FARRAPO *

Sempre o luar despe as águas
E as deusas da noite
Inventam canção
Sempre o amor deixa mágoas
Heranças de medo
Olhares no chão

Sonho de paz & vitória
Pecados meninos
Espalham paixão

Cheiro de luz & silêncio
Segredos do tempo
Na palma da mão

Sempre o prazer pede cancha
Floresce algum leito
Serestas em vão
Sempre o amor deixa manchas
Eternas no peito
Saudade-prisão

Tantas coxilhas que choram
Taperas no mato
Sabor solidão

Véu de um feitiço farrapo
Semente de um parto
Em teu coração


* Essa canção chegou a ser interpretada pela amiga Giovana Camisa e por uma cantora de Pelotas chamada Ray Brim. Os registros da canção foram enviados para triagens de festivais, porém nunca foi classificada em nenhum e hoje nem eu fiquei com uma gravação para acervo.

DOCE LAR *

Todo dia tô à toa sob a dor do teu juízo
Teu corpo paraíso, teu gosto amargor
Todo dia na espera
De uma eterna primavera
Torturas e quimeras,
Meu sangue teu frescor
Pois pra ti o meu pecado
É o pendão do meu passado
Já não sei como fugir do teu olhar
Me cansei de te transar
Debutante – doce lar...

Tão bela e imperfeita,
Ninguém igual a ti
Só quero ir-me embora, mas pra onde devo ir
Hoje vejo outras meninas na “Esquina da Dolfina”
E as estrelas cocaína que a noite então soprou
Meu velho moletom já traz o tom do teu batom
Quero ser mais um gaudério rolling stone
Encouraçando corações
Basiliando alguns refrões!

Todo dia tô à toa sob a dor do teu juízo
Teu corpo paraíso, teu gosto amargor
Nas águas deste arroio, tão imundo e tão amado
Vejo sempre nos teus olhos, tanto espinho e pouca flor
Qualquer dia te abandono, digo não ao teu abraço
Minha musa, minha puta, meu amor...
Meu amor!

Enquanto este povo frágil e fanfarrão
Sepulta de vez toda a nossa canção
Pedindo desculpas aos donos da culpa
Perdido no bosque marcando bobeira
Tão triste tapando o sol co’a peneira
Pedindo justiça com tanta preguiça

Para sempre doce lar
Para sempre vou te amar
Para sempre doce lar

Enquanto este povo sofre de sopetão
Vendendo raízes herdadas do chão
Seguem os dias e passam os anos
Tantos enganos, perdas e danos
Na madrugada deserta e tão fria
Alguém que te chama de “miss simpatia”

Para sempre doce lar
Para sempre vou te amar
Para sempre doce lar

Enquanto este povo pobre e porcalhão
Espalha boatos, mastiga ilusão
Eu sei que acidentes e festas são prêmios
Eu sei que a segunda e o domingo são gêmeos
Eu sei do perigo de ser teu amigo
Então levo meus planos não deixo contigo

Para sempre doce lar
Para sempre vou te amar
Para sempre doce lar.




* Compus essa canção em 1993. Apresentei ela pela primeira vez no mesmo ano, num evento no Gitão chamado “Garota Saúde” (se não me falha a memória era beneficente para comprar o Raio X da Santa Casa). Cheguei a tocá-la algumas vezes em bares e na abertura de um show do César Passarinho em 1997. “Doce Lar” nunca foi gravada, embora seja, na minha opinião, a maior declaração de amor que já fiz para a minha cidade e uma das canções mais importantes que já escrevi.

UM POUCO DE TUDO *

São pais e filhos e avós
São todos mais e somos nós
São amigos, vizinhos, parentes
Gente que não entende a gente

São estrelas que se cruzam

No vazio lá do céu
São as cores que lambuzam

O pincel e o papel
São avanços da ciência

Que vieram nos salvar
São amassos, confidências

Que fizemos ao luar.

São lágrimas e sorrisos
São infernos e paraísos
São as ruas e o aconchego
Gente que não nos dá sossego

São as dores que passaram – nossas vidas Por Aqui
São os dias que sonhamos e ainda estão por vir
São canções que já esquecemos, são os graves, os agudos
Nosso amor é assim mesmo... Um pouco de tudo!

São flores (paz e ciúme)
São odores e perfumes
São fofocas e faz de conta
Gente que não paga nossas contas

São paixões escandalosas – sentimentos com defeito
São os versos e a prosa, são o que não tem mais jeito
São palavras se perdem na loucura do poema
São as rosas e a serenata, o chicote e a algema

São verde, amarelo, vermelho
São as fotos e o espelho
São a fome e a vontade comer
Gente que não sabe o que quer

São mil léguas lado a lado – nossas vidas Por Aqui
São tréguas no fogo cruzado, não deixamos de insistir
São os beijos que marcaram, as carícias de veludo
Nosso amor é assim mesmo... Um pouco de tudo!




* Essa bossa nova foi composta em dezembro 2006 para o disco da minha grande amiga Jana Brasil. A guia ainda está engavetada no estúdio, espero que um dia a gente conclua as gravações.

MOFO *

Nas paredes da velha casa
No coração sem sentimento
A imaginação sem asas – sem movimento!

Nos romances pela estante
Nas lembranças do casamento
A esperança gigante – sem cabimento!

Por todas as peças da casa
Vazio – saudade – lamento
O mofo nos vidros (madeira e cimento)
Por todos os dias que restam
Angústia – dor – desalento
O mofo na vida inerte no tempo!

Porta-retratos e alianças
E o coração já bem mais lento
Toda a solidão herança – um testamento

Desejo desesperado
De rever os bons momentos
E descansar no passado – adeus & acalento!



* Compus este samba-canção em 2002. Nunca foi gravado, quem sabe um dia...

CLASSIFICADOS *

Vendo de barbada
Minhas mancadas,
Minha história mal contada
Toda a saudade
Que me espera pela estrada
Meu violão (verso & voz)
Minha toada!

Vendo de barbada
Minhas cantadas,
Minha última cartada
Toda a vergonha
De várias vaciladas
Meu violão (arma & alma)
Minha balada!

Meu amor deixe a porta entreaberta
Hoje eu estou em oferta
Serei de grande serventia
Meu amor aceito carro no negócio
Cem mil vezes no consórcio
Serei amor pra todo dia!

Vendo de barbada
Minha noitadas,
Minha conversa fiada
Toda a ilusão
De viver um conto de fadas
De mão beijada
(A troco de nada...)



* Outro samba-canção, também composto em 2002.

COMO SERÁ QUE VOCÊ VAI MORRER? *

Refrão
Como será que você vai morrer?
Como será que vai ser?
Pense nisso agora meu amigo
Como será que você vai morrer?

Talvez num avião forçando a descida
Talvez assalto, talvez bala perdida
Talvez apenas idade avançada
Talvez uma garganta cortada...

Talvez uma cãibra no meio do mar
Talvez até uma guerra nuclear
Talvez um tropeço (a cabeça no chão)
Talvez uma pausa no coração...


Refrão

Talvez incêndio, talvez alta voltagem
Talvez excesso de coragem
Talvez um caminhão de frente na rodovia
Talvez uma barriga vazia...

Talvez cigarro, pico, cheiro, bebida
Talvez alguma veia velha entupida
Talvez um vírus qualquer
Talvez o amor cruel de uma mulher...

Refrão

Mesmo quem não faz por merecer
Também vai morrer
Também vai...




* Essa é uma balada com levada pop que compus lá por 2001. A letra é bastante mórbida, talvez por isso nunca tenha me aventurado a gravá-la.

FLOR DO SERTÃO *

Eu
A chinoca mais bela
Fantasia singela
Sentimentos campeiros
Mil encantos rurais
Capinando o terreiro
Feminina demais...

Eu
A mulher da campanha
Que trabalha e não ganha
Cheiro tosco de mato
Perfumando o jardim
As paixões e o recato
Sonhos dentro de mim...

É penca, baile e marcação
Segue esperando meu coração
O rancho enfeitado
Meu corpo guardado
Pr’um jovem peão

É penca, baile e marcação
Segue esperando meu coração
O amor que ilumina
Selvagem menina
A flor do sertão!

Eu
“Agro-moça” faceira
Que não senta a poeira
Quando o sol veste o dia
Solitárias manhãs
Submissa e bravia
Tão sestrosa cuña...



* Esta é uma canção da minha "fase (ou face) nativista" e foi interpretada pela amiga Rose Guevara na 6ª Payada, Mostra de Arte do Conesul (em 1998). Também ganhou vida na voz de várias meninas em concursos de prenda no C.T.G. Tropeiros da Querência de Arroio Grande.

VERDE OLHAR *

Vim ver teu olhar
Verde olhar
Vim ver de perto
Quem vier te olhar
Verde olhar
Olhar incerto

Já verte no olhar
Verde olhar
Coração deserto
Vim ver-te me olhar
Verde olhar
Vim tão descoberto

Frieza & fissura,
Distância & procura
Esmeralda imatura percorre o lugar

Teu jeito singelo ao luar
De ver, de olhar
Teu jeito tem gelo ao luar
De ver, de olhar.



* Esta canção foi composta entre 1999 e 2000 e nunca saiu da gaveta. Gosto muito dela devido à sua melodia simples e também à poesia bastante s
ensível.

CORAÇÕES COURAÇADOS *

Se deixei tudo assim ao léu
Que fazer? Que posso dizer?
Hoje em restos de sonho & luto
Surgem tantas e tantas perguntas
Mas como alguém já me dizia:
-The answer is blowin’in the wind!

Quem sabe eu chore por saber
Nossas frágeis intenções
Pois ninguém pode compreender
Nossos ébrios corações couraçados!

Se ninguém quer me ouvir agora
Que fazer? Que posso dizer?
“Ganhar loucuras,
Guardar rancores,
Gastar pecados,
Gritar amores...”
Desse jeito, ao que tudo indica,
Nem mesmo Freud explica!

Quem sabe eu chore por saber
Nossas frágeis intenções
Quem sabe eu passe a me perder
Entre tantos corações couraçados!



* Essa é uma das primeiras canções que escrevi. Fazia parte do repertório da nossa banda de rock (chamava-se banda “Que posso dizer?”, sei que é horrível). Fizemos muitas apresentações em Arroio Grande no início dos anos 90 (1990 e 1991). Creio que não tem quase nenhum valor literário, mas grande importância histórica e pessoal.