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TORTURAS

I
Carlinhos não devia ter mais do que cinco anos quando o indesejado aconteceu. Um homem barbudo, alto e forte (que atendia pelo nome de Clóvis) obrigou o pequeno Carlinhos a sentar numa estranha cadeira e imediatamente começou a caminhar em círculos, observando atentamente o comportamento do menino. Tomado pelo medo, Carlinhos até pensou em gritar por socorro, porém o homem barbudo foi mais rápido e amarrou um pano em sua garganta com tanta força que ele mal podia respirar. Um enorme pavor, então, tomou conta do menino. O homem barbudo, olhando fixo nos olhos de Carlinhos e sorrindo discretamente, abriu uma pequena gaveta onde o menino pode observar vários objetos pontiagudos, frascos jamais vistos e lâminas de diversos tamanhos. Foi nessa hora que Carlinhos começou a chorar silenciosamente. As lágrimas escorriam pelas bochechas e pingavam na ponta de seu queixo miúdo e esbranquiçado. Através de um enorme e retangular espelho ele conseguiu avistar seu pai, sentado lendo um jornal e parecendo não dar a mínima importância para o desespero do filho. O menino imaginou estar vivendo um pesadelo, o maior de sua vida, que se tornava ainda mais sofrido perante a omissão do próprio pai a todo aquele ritual de tortura. Alguns minutos se passaram até o pai de Carlinhos soltar o jornal e finalmente tomar uma atitude. Pagou o barbeiro pelo serviço e saiu pela rua levando o filho pela mão.

 
II
Alexandre estava sentado, com os óculos na ponta do nariz e o olhar fixo numa revista de turismo quando a escultural morena adentrou o recinto exalando um perfume de intensos poderes afrodisíacos. Com cabelos negros, enormes olhos verdes uma boca carnuda e sedutora a mulher bateu a porta, sentou-se na frente de Alexandre e cruzou as pernas expondo a fartura das belas e grossas coxas, que se comprimiam numa minúscula mini-saia. Alexandre engoliu em seco e começou a puxar assunto com extrema cautela. Em poucos instantes os dois já estavam falando sobre intimidades diversas, relacionamento e sexo. Após revelar vários segredos de sua vida sexual a mulher ergueu-se da cadeira e caminhou timidamente até uma pequena cama que se encontrava a poucos metros de uma janela basculante. Abaixou a mini-saia e deixou visíveis suas nádegas bem torneadas e lisas, cobertas apenas por uma pequenina calcinha preta de renda. Depois subiu na cama, feito uma pantera e pediu para Alexandre ter paciência, pois ela não fazia aquilo há muito tempo. A morena esticou seu lindo corpo, tirou a calcinha (com leve desembaraço) e abriu as pernas bem devagar, sem olhar na direção de Alexandre. Muita coisa poderia ter acontecido naquele dia, porém o homem sequer chegou a tirar sua roupa, apenas fez o que já estava acostumado. O importante para Alexandre, naquela ocasião, era ser firme e não demonstrar o súbito desejo que a bela morena lhe despertara. Afinal não ficaria bem para ele, ainda mais se tratando do ginecologista mais conceituado da capital.


Publicado em 02 de outubro de 2009.

E UMA DÉCADA SE PASSOU...

Em 2009 faz exatamente dez anos que meu livro, de poemas concretos, “Delírio Delicado” foi editado. A publicação foi ideia do amigo Valder Valeirão (e também das primeiras produções deste grande web designer) estando entre os poucos títulos lançados pela extinta SMQP (Sociedade Mário Quintana de Poesia) de Pelotas. A pequena obra ainda contou com capa elaborada pelo político do PT Donga, com prefácio assinado pelo saudoso e genial Pedro Bittencourt (o velho Pedro) e deixou evidentes as influências de Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Walter Franco e Arnaldo Antunes. Delírio Delicado chegou ao conhecimento do público num pré-lançamento ocorrido no Clube do Comércio (durante um show da cantora Luciana Pestano, que embora muitos nem lembrem/saibam esteve em Arroio Grande). Em seguida o lançamento oficial do livro aconteceu na festa de inauguração do Centro de Cultura Basílio Conceição (apesar de não ser incluído no protocolo e nem receber nenhuma citação oficial, comprovando que minha relação problemática com o PDT já vem de muito tempo atrás). Alguns poemas do Delírio Delicado chegaram a ser musicados, como “Sem musa” e “Alguém que me agrade”, este último fazendo parte do disco Rota da Estrela do compadre Cardo Peixoto. Delírio Delicado teve apenas uma edição com pequena tiragem de 500 exemplares, estando obviamente esgotado há tempos (quer dizer, acho que minha mãe tem uma cópia escondida... coisas de mãe), porém é possível fazer download completo do livro no site (sidneybretanha.com na sessão “livros”). Outros poemas do mesmo estilo podem ser conferidos em minha página no portal Mural dos Escritores ou neste Blog.
Pode até ser que Delírio Delicado não tenha lá grande importância literária, no entanto é uma obra que faz parte não apenas de meu discreto histórico pessoal como artista, mas também da produção cultural de nossa cidade; por tudo isso decidi lembrá-la na coluna desta semana (além de me exibir um pouco também, é claro). Não deixem de conferir no site! Desde já agradeço as visitas e até a próxima semana.
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Publicado em 25 de setembro de 2009.

O DIÁLOGO DO MILITANTE FANÁTICO COM O TORCEDOR SURDO NA FILA DO CAIXA ELETRÔNICO

- Acho o fim, esse povo chato falando pelas esquinas!

- Sim, foi ruim parar o campeonato por causa da gripe suína!


- Eles têm essa esperança de cassar o Jorginho!

- Claro que faz diferença escalar o Leandrinho!


- Pena que não perderam pro Eglom!

- É, tem o Teteu que também faz gol...


- Aliás, essa gente do Eglom e do Chaleira são um lixo!

-...ou o Marlon, que não é brincadeira e ainda o Mincho!


- Gostam de mamata e só lhes convém ver o circo pegar fogo!

- Pois é, o Batata é um cara que conhece muito bem o jogo!


- Nós temos é que acabar com essa raça do PDS!

- Também acho que vamos ganhar a Taça RBS!


- E na eleição, eles dizem que o Jorginho cometeu um crime!

- Sempre é o Capitão... o Marquinho que organiza o time!


- Isso é uma pobreza! Eu odeio o Meridional, só leio a Evolução!

- Com certeza... Pra falar de futsal quem sabe é o Otávio Falcão!


- Estou falando da eleição, seu animal!!!

- Sim, eu sei que é da seleção de futsal!


- Bah tchê, mas tu não presta, garanto que votasse no PP!!!

- Gostei da ideia, vamos fazer uma festa se a seleção vencer!


- Vocês são fofoqueiros e atrasados, o Ronaldo é que tem razão!

- Pode deixar que eu te guardo um lugar do meu lado lá no Gitão!


- Os PP são uns filha-das-P*, esse gente adora lançar boato!

- Ou quem sabe a gente escuta, pela Difusora ou pela cento e quatro!


- Besta igual a ti não tem... tu é um baita ignorante!

- Isso aí... Não tem pra ninguém! Dá-lhe Arroio Grande!


- Ah, se eu pego quem votou no Chaleira, eu juro que eu esfolo!

- Claro que podemos levar bandeira, mas... não vou sentar no teu colo!!!


Publicado em 19 de setembro de 2009.

JÁ QUE O ASSUNTO É ESSE...

A última segunda-feira (Dia da Independência) causou pânico na comunidade, uma vez que o temporal deixou grandes estragos na Terra de Mauá. O que para alguns se chama “El Niño” e, para outros, Temporal de Santa Rosa, castigou com extrema violência a região sul e não poupou Arroio Grande de suas marcas de devastação. Os prejuízos do mau tempo ainda serão assunto nas rodas de mate por um bom tempo, contudo acredito que nada deixou a população tão insegura quanto a falta de energia elétrica, que estendeu-se Por Aqui até o princípio da noite. Como afirma o velho ditado: “água e luz a gente só dá valor quando falta!”. Mas imaginem por alguns instantes como seria a vida sem luz elétrica. Ninguém mais usaria o caixa eletrônico (que muitas vezes mais nos estressa do que nos auxilia, além de pagarmos pelo serviço), ninguém mais navegaria na internet (seria o fim das redes de pedofilia, dos golpes virtuais, dos prejuízos às relações humanas causados pela rede e também da conta no fim do mês, é óbvio). Ninguém mais assistiria TV (consequentemente, não haveria novelas, nem enlatados americanos, nem BBB, nem programas de sertanejo e forró, nem propagandas de disk sexo durante os desenhos infantis, nem Silvio Santos, nem Zorra Total... é, nesse caso não seria nada mal MESMO). Não haveria cartão de crédito para pagar nem TV por assinatura nem baile funk nem metrô nem óbitos por choque elétrico nem aspirador de pó passeando pela sala nos dias de ressaca. O caso é que, infelizmente, também não haveria CD, DVD, barbeador elétrico, rabo quente (para aquecer a água do chimarrão), semáforos para controlar o trânsito, guitarra elétrica, cerveja gelada no verão (pobres homens), chapinha para alisar os cabelos (pobres mulheres), micro-ondas, banho quente, etc. Cabe considerar ainda que na falta de eletricidade também falta água nas residências. Evidente que sem energia elétrica haveria muito mais perdas do que as citadas neste texto, no entanto a intenção é apenas estimular a imaginação de cada um e comprovar o quanto todos nós vamos nos tornando mais dependentes da “luz” ao longo dos anos. Fico Por Aqui, desejando que Deus nos livre dos El Niños e dos Blackouts de hoje em diante, e convidando a todos para lerem neste espaço, na próxima semana, a coluna intitulada “O diálogo do militante fanático com o torcedor surdo na fila do caixa eletrônico”. Grande abraço!


Publicado em 11 de setembro de 2009.

ENTRANDO EM CAMPO

Hoje estou voltando à ativa (não, nunca estive na “passiva” pessoal, não vão pensar bobagem), depois de um período de férias. Ser patrão de si mesmo tem lá suas vantagens. Quando “ataquei” de colunista foi apenas para minimizar as momentâneas ausências do meu primo Caboclo e do meu amigo Julinho Sallaberry. Depois acabei ficando, ficando, ficando... e quando dei por mim já não estava nem tocando violão mais, apenas me preocupando com a crônica da semana que vem. Percebi então que bancar o escritor estava me prejudicando e era hora de dar uma parada (mais ou menos a mesma coisa que fiz aos 17 anos em relação à maconha, só que nesse caso acabei não voltando nunca mais). Pode parecer apenas uma analogia bem humorada, mas creio ser bem mais do que isso. A literatura é também um vício. Um bom vício, porém assim como todos os demais deve ser apreciado com moderação. A primeira expectativa que tive, logo que surgiu a oportunidade de trabalhar no jornal Meridional, foi a que eu finalmente conseguiria construir textos em prosa. Desde pequeno sempre fui mais “manso” em versinhos e, como o Meridional passaria a ser uma função de sobrevivência, eu não teria outra alternativa a não ser aprender. Como diz o ditado: “a dor ensina a gemer”, e quando o calo aperta a gente se vira. Considerando que todos nós estamos diariamente aprendendo, posso afirmar que tenho aprendido muitas coisas nestes quase 5 anos de jornal. Como por exemplo:
1) Algumas vezes uma foto bem (ou mal) comentada é mais eficiente que muitas indicações legislativas (posso afirmar por experiência própria);
2) O meio de imprensa é muito mais “viperino” que o meio político (outra conclusão tirada após sentir na pele as “façanhas” de certos “colegas”);
3) Se o jornal for colorido ou preto e branco não altera em nada nas vendas Por Aqui, só muda o preço para o anunciante;
4) O número de pessoas que lêem um jornal é, em média, 5 vezes maior que os exemplares veiculados;
5) As pessoas, em geral, tendem a valorizar textos bobos e corriqueiros e desprezar textos de grande relevância;
Teriam muitas outras tantas deduções que não caberiam nesta coluna, apenas deixo mais uma, a qual cheguei recentemente com a ajuda de um amigo. Descobri que - quando o assunto é política - tenho uma forte tendência a escrever do mesmo jeito que me expresso oralmente (em discursos, no caso). Na verdade o amigo que me alertou para isso estava P* da vida por causa de um texto onde ele se sentiu atingido, e que, eu imaginei, fosse lhe fazer dar boas gargalhadas. Talvez tivesse algum fundo de verdade. Talvez tenha sido uma verdade cruel demais para ser escrita. Não sei ao certo e nem vem ao caso, já me desculpei (embora cada vez mais o nosso mundo esteja pré-disposto a não aceitar desculpas de ninguém). O fato é que foi uma ótima descoberta, certamente irá me auxiliar para aperfeiçoar as formas de expressão literária e também caminhar na busca de melhor explorar tal estilo (se é que pode ser chamado, assim... “característica” talvez seja um termo menos exibicionista).
Bom, já falei demais por hoje, melhor encerrar Por Aqui. Deixo meus sinceros agradecimentos ao meu enfurecido, bem-sucedido e feliz amigo (por motivar minha volta) e dedico este recomeço ao nosso colunista esportivo (que já está quase completando DOIS anos na família Meridional... é gente, eu também não sei como é que nós agüentamos ele tanto tempo... imaginem só a coitada da minha amiga Rogéria!) o famoso desportista multimídia, Otávio Luiz Falcão, que me incomodou durante todo o período de férias (“- E aí chefe, vai voltar a coluna essa semana ou ainda não???). Ok, estamos aí! Com o time em campo mais uma vez e pronto para levar canelada... mas para bater também! É claro! Até a semana que vem e podem comentar que ninguém fica brabo!
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Publicado em 04 de setembro de 2009.

PEQUENA PARÁBOLA SOBRE LOUCURAS E PODER

Imaginem que naquela manhã o Presidente Lula estava aguardando a comitiva de autoridades de um pequeno lugarejo, que viria reivindicar melhorias para sua comunidade. Eles não eram políticos, mas haviam sido escolhidos por possuíram mais cultura e melhor nível intelectual que os políticos do povoado. Logo que o Porta-voz abriu a porta o Presidente já se levantou para receber os visitantes que entraram num grupo de quatro; seus nomes: Albertino, Ninja, Sica e Bonito. Sentaram ao redor da mesa e Lula começou a conversa perguntando sobre qual a função de cada um. “-Eu sou pecuarista e costumo fazer negócios internacionais de gado!” disse Albertino. “-Eu faço tudo, sou macho mesmo e não me afróxo!” disse o Sica. O Bonito limitou-se a dizer que estava com muita azia no momento, enquanto o Ninja começou a cochilar na beira da mesa.
O Presidente Lula, percebendo que o grupo era inusitado, resolveu ir direto ao assunto e saber quais as demandas do lugar a qual os quatro visitantes pertenciam. Albertino afirmou que era preciso mais investimentos na pecuária e no gado de corte. O Sica pediu mais álcool para todos e o Bonito pediu um pastel, enquanto o Ninja já soltava os primeiro roncos.
De repente a pré-candidata Dilma Rousseff entra na sala. O Sica grita: “Eu respeito a senhora, nunca lhe faltei com o respeito e quem disser ao contrário eu pego e arrebento os beiço...!” O Bonito soltou um sorriso, com mais gengivas que dentes, para a Ministra e disse: “-Que azia!” O Ninja acordou, olhou bem para ela e indagou: “Mariela? Que tás fazendo aqui?” Enquanto isso o Albertino pediu licença para atender uma ligação importante, pois estava por fechar um grande negócio com mais de 900 mil cabeças de gado.
Querendo colocar um ponto final na confusa reunião, Lula gesticula, com um de seus nove dedos, para a Ministra que, já sabendo o significado da senha, informa a urgência do Presidente se dirigir até o Ministério das Cidades.
Após se despedirem dos quatro cambaleantes interioranos, Dilma e Lula caminhavam pelo corredor da Casa Civil quando a Ministra questionou: “-O que eles queriam Presidente?” A resposta foi imediata: “-O mesmo que todos querem... soluções para seus problemas e melhoria de vida!”

Moral(is) da estória:
(1) Podem mudar as lideranças e os políticos, em pequenos e grandes lugares, que as demandas do povo sempre permanecem sendo as mesmas;
(2) O poder vicia tanto quanto a cachaça, usados em demasia mudam a personalidade de qualquer um;
(3) Ambas podem ser poderosas e favoritas para as próximas eleições, mas a nossa vice é mais bonita;
(4) Juro que escrevi isso sem ter bebido nada, foi falta de assunto mesmo, semana que vem prometo coisa melhor, um abraço a todos!
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Publicado em 05 de junho de 2009.

IDENTIDADES

Algo que me impressiona todo dia é como os seres humanos praticam o criativo hábito de construir apelidos entre si. Cada um de nós possui muito mais nomes do que caberia na certidão de nascimento. Para exemplificar resolvi usar meus próprios apelidos diários. Afinal, a grande maioria não gosta de lembrar de seus apelidos e nem da forma como são tratados (muitas vezes até sem saberem). Se tal curiosidade acontece comigo, podem apostar que acontece com todo mundo. Vejam só algumas maneiras de tratamento que recebo constantemente. Lá vai:
Filho – minha mãe (esse é óbvio, né?),
Papai – minha filha Olga (às vezes também me chama de careca e barrigudo, coitadinha da menina, acho que está precisando de óculos);
Ôpaiê! – minha filha Ingra (outro dia me chamou de “Mané”, ela deve ter aprendido essas coisas na escola ou na TV. Nem sabe o que significa. Ao menos eu espero...);
Companheiro – Fabiano Lima (heranças do passado político)
Azia – Marília Sales (sei que não é sincero, no fundo ela é minha fã);
Vereador – Faustino (não sei se é saudosismo ou deboche, mas não me incomoda);
Bretanha – Juninho, Jorge Américo e Fábio Caroço;
Mestre – Dr. Viríssimo (já faz tempo que nos tratamos assim, nem lembro porque);
Meu filho – Amália (não, ela não é minha mãe, mas às vezes tenho a sensação que somos almas gêmeas);
Primu – Caboclo (fazer o que né? Família a gente não escolhe);
Criatura – Chichano (acho que ele usa essa expressão com todo mundo);
Idiota – Julinho Sallaberry (ele chama todo mundo assim. Eu acho...);
Petê – Titon (outra herança do passado político);
Sidíí – Sandro Campello;
Arrogante – Dr. Ronaldo (confesso que já houve reciprocidade, hoje apenas indiferença);
Vizinho – Eliana Lúcio;
Cantorrr – Cristiano Vitória (aliás, tenho visto pouco essa figura depois que se tornou um pai fresquinho... parabéns goleirão, tu merece!)
Tio – Guilherme Ganso (é um insensível mesmo, um dia o Lorenzo e o Ulisses vão me vingar);
Meu irmão – Dr. Anarolino Silveira (acreditem ou não, somos irmãos. Coiós se entendem);
Sidinelson – Saninho;
Areninha – Inácio Lima (tinha que ser coisa desse “tranca rua”);
Sidigay – Miguel Vidal (só porque chamei ele de “My Girl” uma vez. Não sabe nem brincar);
Titiêr – Setembrino (arrisquei dar umas aulas de violão para ele... Bom, nós dois falhamos, mas é um grande amigo);
Zidiênéi – Nasser;
Chefe – Kika “Ranzolin” Ribeiro;
Professor – Samuel do conselho e Dr. Vitalino (no caso do Samuel também tivemos algumas aulas de violão. E... vale dizer que o resultado foi bem melhor que com o Setembrino);
Lindo – Gisele Bündchen (tá bem, admito que forcei um pouco. Foi só para ver se os leitores estavam atentos. Mas também ela nem me conhece, né? Quem sabe...)
Tem ainda uma boa parte da minha família que me chama de “Betinho”, só não me perguntem o motivo. Acredito que esse fenômeno de apelidos deve ocorrer com todo mundo. Talvez seja o que Max Weber chama de “papéis sociais” na sociologia. Enfim, minha sugestão é que, para amenizar tantas crises de identidade e facilitar a comunicação diária, as pessoas passem a usar aqueles crachás com nome. Já acontece Por Aqui em bancos, farmácias, no Baldaratt, etc. Podíamos usar todos e sempre, que tal? Quem se habilita a começar? Eu que não...


Publicado em 22 de maio de 2009.

PARA DESENTRISTECER LEÃOZINHO...

O time de futsal tinha a seguinte escalação: Hibanes no gol, Léo como fixo, Valder na ala esquerda, Beto na ala direita e eu como pivô. Não precisa dizer que não ganhávamos nunca. Ou quase nunca. Algumas vezes vencemos o time do “Zé do Ladislau”, por incrível que pareça, mas isso é outra história. Também tivemos a cara de pau de enfrentar o time oficial da AABB uma vez. Claro que levamos uma goleada, mas não lembro do placar. Paramos de contar quando eles marcaram o 30° gol, afinal ainda faltava meia hora para acabar a partida. É, não dá para negar que nossa habilidade com o copo (depois dos jogos e pela madrugada afora) era bem melhor do que com a bola no pé. E esse time se dispersou. O goleiro se transformou no Dr. Hibanes, é padrinho de minha filha Olga e avança cada vez mais seus conhecimentos na área de cardiologia. O Valder Valeirão tornou-se um dos melhores designers gráficos da região e do estado. O Beto (Alberto Brum) é hoje um respeitado enfermeiro em Pelotas e eu permaneço Por Aqui, fazendo minhas canções, incomodando os poderosos, colecionando alguns processos e dividindo alegrias e angústias com os leitores que ainda têm paciência de me acompanhar. Mas hoje não quero falar sobre esse time de amigos, pois nossas aventuras futebolísticas (e fora das quadras) dariam muitas outras crônicas. Quero falar especificamente do nosso fixo. O “Leocádio” ou “Lingote” ou “Cabo Libório” ou simplesmente Léo. O caçula da equipe. Alegre, tão debochado quanto eu (difícil acreditar né?), companheiro e extremamente afetuoso com os amigos. Durante um tempo viajávamos diariamente para Pelotas no “ônibus dos estudantes” e foi a época onde nosso convívio foi mais intenso. Lembro como se fosse ontem daquele guri, com cerca de 15 anos, chegando na parada com os cabelos longos molhados, um sobretudo preto, botinas castigadas e, ao invés de mochila, uma maleta (estilo vendedor). Sempre sorridente e disposto a aprontar qualquer molecagem que fosse proposta. Pois esse menino que teve boa parte de seus valores moldados pela “irmãe” e professora Lenice, inventou de fazer a maior de suas molecagens com os amigos e os familiares na última semana. Despediu-se da turma num bar em Guaíba, subiu em sua moto Yamaha 600 cilindradas (um sonho antigo dele) e partiu. Partiu para bem longe, deixando muita dor e saudade em todos que tiveram a oportunidade conhecê-lo. Quando saiu de Arroio Grande recentemente ainda deixou um bilhete para o vizinho Edson Vidal encerrando com a frase “viva a vida!” Esse era o Léo, o legítimo sinônimo da palavra VIDA. Alguém que jamais deixaria de tomar um banho de arroio para ficar navegando no orkut. Um cara que saboreava a existência intensamente. Com ele tudo era mais rápido. Tornou-se adulto mais cedo. Bastavam umas duas doses de whisky e já estava rindo à toa. Bastava apertar-lhe a mão para ganhar um amigo sincero, fiel e carinhoso. Quando pessoas com esse perfil nos deixam, também deixam um enorme vazio nesse mundo tão repleto de crueldades e injustiças. Um vazio indescritível, onde habita apenas a tristeza; e a saudade revela o seu lado mais perverso. Foi esse vazio que me preencheu (e a tantas outras pessoas) quando atravessei a infeliz experiência de participar do primeiro funeral de um grande amigo. O menino-leão que, teimoso, “furou a fila” e deve estar nos esperando em algum lugar. Mas esse vazio ainda haverá de amenizar. Ficam os versos de Caetano Veloso; na canção “Leãozinho”, que sempre me fez lembrar do Léo. “...para desentristecer leãozinho, o meu coração tão só, basta eu encontrar você no caminho...” Até breve meu amigo!

Publicado em 1º de maio de 2009.

O CABARÉ LITERÁRIO

Apreciei tanto a definição que o Caboclo utilizou para retratar o universo dos colunistas do Meridional (Crônnicas do Cine Marabá, edição de 17/4/2009) que não consegui conter a imaginação diante deste possível bordel formado por nossos estimados colaboradores e amigos. O Meridional sempre objetivou manter um perfil editorial diretamente ligado à política, cidadania, arte e literatura (que também é arte) e hoje tem motivos de sobra para sentir grande satisfação com a popularidade no mercado e com o trabalho apresentado pelos cronistas nas páginas deste polêmico semanário, amado por uns e odiado por outros. Mas voltando ao cabaré, imaginei até o plantel de “meninas”, atendendo a freguesia local e intermunicipal (para isso já temos até um ponto próximo à rodoviária). Vai aí o que seria o cardápio para noitadas literárias. Escolha a sua preferência querido leitor:
Duda Matta – Essa é uma menina muito maluca e inquieta. Dizem que bebe muito e fuma cigarros fedorentos, mas é dócil e carinhosa. Também prefere sestiar para fora, atendendo a clientela da campanha, mas precisamente pros lados do Capão das Pombas. Na verdade foi ela que abriu as pernas... digo, as portas do nosso cabaré para toda a comunidade.
Ana Rolina – Essa é uma menina mais experiente, educada, inteligente e que usa cabelos longos (rabo de cavalo). Gordinha, ótima para os clientes que se agradam das mais “cheinhas”, gosta de um bom bate-papo, de viajar e de dançar. Moça recatada, porém a maior parte dos fregueses é composta por coiós e, pelo que comentam, há Jacu para passar uma noite com ela também.
Julia – Essa menina é o xodó da casa. Cabelos claros, olhos azuis, habilidades em música e também em culinária. Um pouco casmurra, mas muito carinhosa. Agrada bastante a freguesia, sendo sempre bastante comentada e procurada.
Bonifácia – Menina que gosta do campo, ideal para os fregueses que curtem fazer as coisas ao ar livre. Fala pouco, mas é muito inteligente e sensível. Dizem que faz um amor ecologicamente correto.

Outra rapariga muito procurada pelos clientes é aquela que o Caboclo conceitua como “china veia” e que atualmente está “se moneando”, talvez cansada de tantas orgias semânticas e poéticas. Bom, tem eu também, mas admito que não sou muito bom de cama literária. Na verdade só estou no time dessas sirigaitas mesmo porque sou a dona da bola. Posso me dar o luxo de gerenciar as meninas do cabaré (o que já é um sufoco, elas são geniooosas... vocês nem imaginam), como a cafetina-mor da pornografia verbal e do erotismo gramatical apresentados semanalmente na Terra de Mauá. Ainda é preciso lembrar as outras “moças” dos cabarés co-irmãos, que se entregam semanalmente ao duro (ai!) ofício de escrever, despindo-se diante dos leitores e muitas vezes sem receber a devida consideração de seus fregueses/leitores. Um forte e fraterno abraço a todas e vamos rodar a bolsinha...
Publicado em 24 de abril de 2009.

IDEIAS SOLTAS

Praticamente tudo que existe no planeta em que vivemos é resultado de alguma ideia. As ideias são os embriões de tudo e são concebidas através da representação mental proveniente da imaginação. Mas vamos aprofundar um pouquinho o tema:
"Ideia, é um termo usado em duas acepções: como sinônimo de conceito ou, num sentido mais lato, como expressão que traz implícita uma presença de intencionalidade. A palavra deriva do grego idea ou eidea, cuja raiz etimológica é eidos – imagem. O seu significado, desde a origem, implica a controvérsia entre a teoria da extromissão (Platão) e a da intromissão (Aristóteles). No centro da polêmica está o conceito de representação do real (realidade). Para Platão, a ideia que fazemos de uma coisa provém do princípio geral, do mundo inteligível, que constitui a Ideia Universal, categoria que está na base da sua filosofia, o idealismo. Assim, a ideia da coisa é uma projeção do saber, ao verem a coisa, os olhos, emitindo raios de luz, projetam a imagem dessa mesma coisa, que existe em nós como princípio universal (extromissão). Esta doutrina é designada por idealismo. Para Aristóteles, a ideia da coisa provém da experiência sensível: as coisas emitem cópias de si próprias, através da luz, cópias assimiladas pelos sentidos e interpretadas pelo saber inato ou adquirido (intromissão), doutrina que funda o conceito de realismo. Estas noções estão presentes em toda a filosofia ocidental, em particular no campo da ontologia, a ciência do Ser."
Conseguiram entender alguma coisa no parágrafo anterior? Não? Muito menos eu! O que importa é que as ideias são mesmo fundamentais em nossa vida. Talvez por isso a "ideia" seja um substantivo feminino. Outro fator que está ficando cada vez mais fácil de constatar é que conforme a globalização e massificação de informações aumentam; mais importante e valiosa fica a capacidade de gerar ideias eficientes. Uma boa ideia sempre faz a diferença e tem poderes para mudar o mundo. Um planeta que se arrasta carregando crises financeiras, guerras, desmatamento, violência, saúde precária e tantas ações desumanas diariamente, está comprovado que carece de boas ideias. Além que a nossa situação já é grave, a ideia ainda perdeu o acento agudo, ficando bem mais feia e insignificante. Um legítimo atentado contra a estética da palavra, que além de castrar o acento (chamado pelas crianças recém alfabetizadas de "pauzinho") deixa dúvidas sobre seu futuro semântico e suas condições para sobreviver entre tanta pobreza de ideias e de espírito.
Ficamos Por Aqui, pois vocês não fazem ideia do trabalhão que me deu abordar esse assunto. Mas antes que alguém pergunte o motivo, vou justificar. Só decidi escrever sobre a ideia porque não tive nenhuma ideia melhor essa semana. É devo estar ficando meio mal das ideias mesmo...


Publicado em 17 de abril de 2009.

DE OLHOS QUASE FECHADOS

(Para Stanley Kubrick e em homenagem ao Glamour Gay)

Foi tudo muito de repente. Quando percebi lá estava eu, nu bem no meio de uma sala estranha e cheia de objetos esquisitos. Muitas pessoas ao meu redor, todas usando máscaras e vestidas com roupas largas e da mesma cor. O único pelado, naquele momento, era eu. Bem na minha frente um homem enorme fixava os olhos em mim e se aproximava lentamente. Percebi que sob as máscaras, algumas daquelas pessoas desconhecidas estavam rindo. Talvez debochando de minha nudez desajeitada ou divertindo-se com o que aconteceria comigo naquela noite. O grandalhão me agarrou com firmeza, me puxou para perto dele e não tive nem chance de resistir. O sujeito era muito maior e mais forte do que eu. Olhou meu corpo por inteiro e fez alguns gestos para os outros mascarados. Eu não conseguia entender nada do que eles diziam, apenas pude perceber que o lugar estava frio demais. A baixa temperatura me fazia tremer e me deixava ainda mais apavorado. Também havia várias luzes, muito intensas, no teto da sala, que atrapalhavam minha visão, tornando ainda mais difícil compreender o que eles fariam comigo naquele local. Eu estava até tentando esboçar alguma reação, quando senti o homem grande bater forte nas minhas nádegas com a palma da mão. A mão dele era gigantesca. Enquanto os mascarados riam, comecei finalmente a chorar. Talvez pela humilhação daquela cena, talvez pela dor da pancada que ele me deu ou sei lá por que. Creio que por misericórdia, uma mulher gorda se aproximou e cobriu meu corpo com uma toalha. Depois me apertaram bastante e eu não conseguia identificar mais o que estava sentido. Era como se eu estivesse dopado. Sob efeito de algum alucinógeno poderoso. Meus sentidos estavam confusos, meu corpo doía muito e eu ainda podia sentir um cheiro de sangue no ar. Assustado, com o corpo enrolado apenas numa toalha, senti quando me deitaram num lugar confortável. Foi nesse exato momento que enfiaram algo grande na minha boca. Eu me senti sendo violado e tentei resistir, mas era inútil. Eles eram muitos e eu estava muito fraco naquele momento. Então, sem alternativas, chupei aquela coisa. Chupei bastante e com força. Os mascarados riam muito, então apertei bem os olhos e não parei mais de chupar. Chupei até sentir um gosto de leite descer em minha garganta. Escorrendo sobre a língua, saltando da boca, saciando meus, até então desconhecidos, desejos. Foi maravilhoso, o primeiro grande prazer que senti na vida... Logo ao nascer, quando minha mãe me amamentou.

Publicado em 10 de abril de 2009.

NEGÓCIO FECHADO

Logo que ele saiu do elevador, entrou correndo na sala de reuniões e os diretores da empresa já estavam todos sentados ao redor de uma mesa enorme. Ele sabia que precisava ser perfeito naquele dia, pois somente assim conseguiria fechar um negócio fundamental para sua carreira. Precisava de investimentos em um projeto que fora construído com muita dedicação e que seria capaz de revolucionar o mundo dos negócios. Imediatamente pendurou gráficos, distribuiu folhetos e não parou de falar um só instante. Sempre usava a fala exagerada como uma de suas técnicas de vendas, assim conseguia hipnotizar os clientes. Era uma estratégia infalível, que ele tinha desenvolvido ao longo dos anos.
- Os senhores verão, através destes dados detalhados e do estudo que vou lhes apresentar que, com este investimento poderemos chegar a um faturamento de até 21% ao mês e ainda mudar as diretrizes atuais do mercado. Largaremos na frente e o tempo que os concorrentes vão levar para nos copiar será a grande garantia da multiplicação de nossos lucros e... – era uma avalanche de informações, números e argumentos variados para convencer os diretores da empresa. Possuía um enorme conhecimento sobre o mercado e havia passado anos desenvolvendo aquele projeto, portanto, era o grande momento de sua vida. Foi respondendo as perguntas dos diretores de maneira convincente e pouco a pouco envolvendo todos em sua idéia inovadora. Permaneceu concentrado durante toda a reunião, que já durava horas. Aos poucos ele percebeu que estava se saindo bem e muito próximo de obter sucesso, pois alguns diretores já balançavam a cabeça em sinal de positivo. Outros sorriam com cara de satisfação e mantinham os olhos fixos nos gráficos com uma expressão de quem estava aprovando tudo. A sorte parecia estar com ele naquele dia. Ao final de sua explanação, surpreendentemente, os diretores levantaram de suas cadeiras e aplaudiram. Ele havia conseguido. Seria o maior negócio de sua carreira. Uma nova vida para a família, com mais conforto e riquezas. Quando os aplausos silenciaram, ele estava com o olhar perdido através da janela, concentrando-se para não chorar de emoção. Então soltou um grito desesperado, bem no meio da sala de reuniões:
- Puta que pariu!!!
Foram as últimas palavras que ele disse em seu pronunciamento aos diretores da empresa, antes do primeiro avião atingir o World Trade Center. O negócio nunca aconteceu.

Publicado em 27 de março de 2009.

INCLINAÇÕES MUSICAIS

...é o título de uma canção do compositor pernambucano Geraldo Azevedo em parceria com Renato Rocha, que começa com o seguinte verso: “Quem inventou o amor teve certamente inclinações musicais...” O verso inicial da canção de Geraldo (que chegou a ser gravada por Nara Leão) reflete poeticamente apenas um pouco da importância da música em nossas vidas. Creio que sequer existe vida sem música. Nem mesmo para os surdos. Se alguém não acredita, então recomendo o filme “Mr. Holland’s Opus” (Mr. Holland, adorável professor – segundo a versão brasileira), com Richard Dreyfuss, lançado em 1995 (nem é tão velho assim). Onde um professor de música, após descobrir que seu filho nasceu surdo, passa a desenvolver técnicas de educação musical para deficientes auditivos. A música está presente em tudo e em todos os momentos, manifestando-se com constância no dia-a-dia de todos nós. Existe uma trilha sonora permanentemente ao nosso redor, embalando nosso cotidiano; quanto mais desfrutamos da música e nos deixamos envolver por ela, mais nos qualificamos para viver em harmonia nesse mundo. A música não é, tal qual aquele velho e desbotado conceito acadêmico, apenas a arte de combinar os sons e expressar sentimentos e/ou coisas através deles. Não, é muito mais do que isso. A música pode penetrar as almas, curar grandes males, rejuvenescer os espíritos e, acima de tudo, gerar o amor, em sua simplicidade e plenitude. Como no filme “O som do coração”, que também recomendo (este bem mais novo e pode ser encontrado na MEGA DVD’s, na Fênix e na Star cine, e talvez em outras, mas sabe como é né... eu só cito os clientes do jornal Meridional), pois, apesar de alguns exageros cinematográficos, também auxilia na compreensão do real valor da música e dos musicistas para a humanidade. Quando escutamos uma música ela não penetra somente em nossos ouvidos, mas sim em nossa alma por inteiro. Talvez por isso cada vez mais jovens almejem se tornar músicos, cantores, etc. Afinal, são inegáveis os “poderes” que a música concede aos musicistas, creio que principalmente aos compositores e aos cantores. Como, por exemplo, o poder de invadir o carro de uma pessoa bacana e sensível, que está trafegando solitária sob uma forte tempestade e confortar seu coração, deixando, através da magia musical, a felicidade espalhada pelo ar. Isso é uma recompensa que somente os músicos/artistas têm no desempenhar de suas funções/carreiras. Os mesmos músicos que algumas vezes são considerados vagabundos e condenados socialmente por não possuírem uma carteira de trabalho assinada. Alguns desses vagabundos idealizam o sucesso e a fama, outros já perderam seus ideais há muito tempo, lutando pela sobrevivência, sendo que ainda há outros que querem apenas musicar a vida de sua aldeia e de sua gente. Esses últimos possuem sonhos pequenos, tão pequenos que (como diria Humberto Gessinger) nunca têm fim. São vistos como pessoas complicadas, esquisitas e de comportamento incomum. Mas, ao contrário do que muitos pensam, são artistas que não se preocupam com aplausos e encontram a satisfação plena ao ver sua obra se manifestar na vida das pessoas que admiram. Mesmo quando o público é uma única pessoa, solitária dentro de um carro e sob um temporal de verão. Ter a capacidade de emocionar esse precioso público pode até não ser nenhum cartão Visa Mastercard, mas é algo que não tem preço. Algo que dá ao músico a certeza da importância de seu trabalho. Uma sensação que eterniza e justifica a poesia simples e exata máxima de Caetano Veloso que diz: “...como é bom poder tocar um instrumento!” Uma sensação que mentes ignaras, e limitadas à ganância financeira e à gula por poder, jamais compreenderão. Aos que consideram hipocrisia e duvidam da existência dessa sensação indescritível fica a sugestão de que busquem, através de sua tão propagandeada humildade, compreender e aprender com aquilo que desconhecem. Bastando para isso empinar menos o nariz e saber inclinar-se mais diante da sabedoria intuitiva que somente a arte pode proporcionar. É simples, basta inclinar-se um pouquinho... ouvir... ouvir... e logo o amor chegará em seus corações, pois a música está em toda parte e quem inventou o amor teve certamente inclinações musicais.
Encerro Por Aqui deixando um grande e fraterno abraço ao amigo e ex(?)companheiro Juninho, que com palavras certeiras e de incontestável talento me retratou em sua coluna do dia 13 de março (mesma data em que o blog Auto Retrato completou 1 ano no ar). Haverei de retribuir a atenção assim que a inspiração permitir, talvez não com a mesma qualidade literária, mas certamente com equivalência de carinho e sinceridade.

Publicado em 20 de março de 2009.

ACONTECEU COMIGO NESSE CARNAVAL!

Sei que algumas pessoas não irão acreditar no que vou revelar Por Aqui, mas garanto que não existe nada além da verdade. Tudo aconteceu numa manhã deste carnaval, após uma noite de intensa chuva, o céu estava nublado, eu levantei, de ressaca ainda, e fui caminhando rumo à redação do jornal quando... Avistei a Lair Correa enfurecida com um machado na mão cortando todas as árvores da Mário Maciel Costa. Achei a cena curiosa e resolvi perguntar por que ela estava fazendo aquilo, então fui interrompido por gritos desesperados de cães do outro lado da rua. Notei que se tratava da Eliana Lúcio que estava espancando um pequeno poodle sem dó nem piedade com um pedaço de madeira cheio de pregos. Ainda perplexo com tudo aquilo, decidi seguir em direção ao jornal sem fazer perguntas. Eis que quando dobrei na Visconde de Mauá surgiu o Raul Cristh saindo de casa com uma bandeira enorme do MST e gritando: “-O povo unido, jamais será vencido!” No ponto de táxi da rodoviária os taxistas estavam todos juntos jogando cartas e dando gargalhadas, num exemplo de rara descontração e fraternidade. Na esquina a caminhonete do Paulinho Freitas, estacionada, carregava um adesivo no pára-choque onde se lia “Lula 2010, o Presidente da orizicultura!” Não havia mais dúvida, algo muito estranho estava acontecendo naquela manhã. Fui até a Dr. Monteiro onde encontrei meu primo Caboclo distribuindo panfletos dos “Alcoólicos anônimos”, ele me informou que tinha se convertido e estava com casamento marcado, também me deu um sermão sobre os efeitos maléficos do álcool e me convidou para ser padrinho de seu casamento na igreja. Antes que eu pudesse responder a Maninha me gritou do outro lado da rua, notei então que ela estava usando uma camiseta vermelha da AMT (Ação da Mulher Trabalhista, aquelas que os governistas distribuíam para as eleitoras, de graça, no ano passado). A Maninha gritava “-Viva a São Gabriel!” Fiquei sem entender nada e quando olhei para o meio da rua vinha o Ronaldo do bar, abraçado no Zezinho, e os dois enrolados numa bandeira do Grêmio gritando “-Dá-lhe tricolor gaúcho!” Não consegui mais esconder minha agonia e corri pela Dr. Monteiro em direção ao arroio. Quando passei pela Câmara avistei o Id amarrando os cabelos e o Celerino penteando a franja na frente do espelho, da porta da biblioteca a Marília, extremamente bem humorada, me gritou “-Oi meu amigo, que prazer te ver! Está um lindo dia hoje né?” Eu já estava quase na frente do Bicão da Fátima quando um lindo carrão deu uma freada brusca do meu lado e abriu o vidro. Era o Dr. Ronaldo Cardozo, que sorridente me disse: “-E aí Sid, quanto tempo tchê?! Vamos dar uma volta, tomar um chimarrão e trocar umas ideias?” Olhei em volta e não avistei nenhum segurança da prefeitura. Claro que fiquei desconfiado, mas como nem o Santa estava por perto, imaginei que eu não correria perigo e embarquei no carro. O Ronaldo, com uma expressão de simpatia ligou o rádio do carro e escutei um barulho ensurdecedor. Parecia uma sirene, que rasgava os meus ouvidos. Vi que ele estava dizendo alguma coisa, mas eu não conseguia ouvir nada, apenas aquela barulheira infernal. Demorei alguns minutos para perceber finalmente que se tratava do meu despertador. Pulei da cama completamente banhado em suor e decidi de uma vez por todas, nunca mais misturo cerveja com vodka antes de ir dormir. Nem mesmo no carnaval!
Publicado em 27 de fevereiro de 2009.

QUE FALTA VAI FAZER O NEGÃO...

Will sempre foi um negro diferente dos demais. Era uma verdadeira dádiva de Deus colocada entre os homens. É bem verdade que durante anos ninguém lhe deu atenção, nem perceberam seus inigualáveis talentos. Mas, no momento em que as pessoas descobriram o seu valor e as suas incríveis potencialidades, finalmente teve o reconhecimento mundial que sempre mereceu. A partir daí, a vida foi bem diferente. O negro passou a ser admirado e disputado por todos. Era o preto mais querido do momento. A grande maioria da população sempre queria estar com Will, alguns chegavam ao ponto de brigar para ficar com ele. Um crioulo muito popular. Sempre esteve acima de discriminações raciais e foi alheio a preconceitos em sua trajetória. Claro que ele não era um negro comum, possuía uma energia vital única e conquistou todo o mundo rapidamente, graças a essas qualidades. Ajudava as pessoas em suas mais diversas funções e, com isso, tornou-se quase uma unanimidade. Aos poucos todos foram ficando dependentes dos trabalhos de Will e já não sabiam mais viver sem a força dele. E o preto foi incansável, não desistia nunca. Parecia estar sempre em todo lugar, sempre disposto a servir homens e mulheres. Sua força era inesgotável e seus poderes únicos entre a população. Não tinha hora nem local que ele não estivesse ajudando alguém. Passou a ser então um escravo. Seria a escravidão uma sina dos negros? Certamente não! Ainda mais deste, cheio de talentos. Mas Will virou escravo e não havia como negar. Sempre servindo. Tentavam tirar proveito da força de Will de todas as maneiras. O negro foi explorado ao máximo, sem dó nem piedade. Ninguém nunca se preocupou até quando ele agüentaria trabalhar para tanta gente. As pessoas abusavam de Will e faziam o que bem queriam com ele. E esta dura realidade se estendeu por muitos anos.
Um dia, porém, após tanto auxiliar as pessoas, Will desapareceu. Sumiu totalmente do mapa. Nunca mais foi encontrado. Após anos ajudando a melhorar a vida da população, o inesquecível Will abandonou todos. Era difícil de acreditar. O que parecia impossível de repente aconteceu. A vida nunca mais foi a mesmo depois que ele partiu. Ninguém sabia como viver sem Will, afinal desde que ele surgiu tudo se tornou tão perfeito. E esse preto deixou mesmo saudades no mundo. O nome de Will (como muitos estranhamente o chamavam) na verdade se escrevia “oil”. Que em português significa petróleo.
Publicado em 20 de fevereiro de 2009.

UMA NOITE NO BAR DO XIRINGA

"Para o grande amigo, cúmplice e parceiro musical Miguel de Freitas Vidal (Verão de 2008)."

O lugar se chama Xira’s Bar. Já faz mais de quinze anos que resiste nas noites da pequena Arroio Grande. Sempre com uma boa música, gente bonita e a risada inigualável do seu proprietário. Aliás, o proprietário (conhecido como Xiringa) é na verdade um cliente também. Troca idéias com os fregueses, escuta confissões, aconselha e, é claro, se degusta com a variedade de bebidas. As noites no Xira’s Bar não fogem muito à regra dos demais bares, com a peculiaridade de serem em Arroio Grande, lugar onde as noites "não têm noite". Não fosse o tal do Xiringa que atravessa invernos e verões sempre "fabricando vida noturna e inteligente" nessa cidadezinha do sul do sul do Rio Grande do Sul. Na rua, apesar do espaço estreito, os carros vão fazendo o estacionamento oblíquo e despejando os boêmios, que se subdividem em vários grupos. Uns mais espalhafatosos, outros mais discretos; uns acompanhados, outros à procura de companhia. Enfim, de tudo um pouco. Em poucas horas o ambiente está preenchido por integrantes de diversas gerações, e tomado por uma aura "poli-sentimental", onde a multiplicidade de interesses e assuntos revela a magia e o real significado da palavra "bar". Pelo balcão escorre uma correnteza de opiniões sobre futebol, política, música, passado, presente, futuro, amor, arroz, bundas, bebidas, etc. Tudo temperado com a cerveja mais gelada do universo. Ao menos do "universo boêmio-paroquiano" dos freqüentadores do Xira’s Bar. Sempre tem algum indivíduo que fica no canto do balcão, escorando as costas na parede, isolado e só observando a noite se desenrolar. Como se fosse um juiz, deixando escapar no olhar a sua sentença moral para os comportamentos incomuns, que vão se manifestando conforme o álcool é consumido e as horas avançam. Mas nada pode abalar a química do bar que se desenvolve num verdadeiro espetáculo noite afora. Num determinado momento a música parece uns decibéis acima do normal, porém não o suficiente para interromper as tantas conversas que se entrecruzam no ar repleto de fumaça e mistura de perfumes. Vai se aproximando a hora do "vale tudo", todos dançam, "bebemoram" e até o Xiringa já está tomando todas no meio da "galera". A alegria encontra sua plenitude e o bar inteiro se transforma numa tribo em dia de festa. Batucada nas mesas, coreografia na beira do balcão, beijos ardentes contra a parede e uma turminha que sai lentamente em direção à esquina (depois retorna sorridente e com os olhos vermelhos).O sol começa a pular a janela, pouco antes do Marcão e do Romerito tomarem a última gelada do freezer, finalmente, então, a porta se fecha. E encerra-se mais um capítulo das épicas madrugadas do Xira’s Bar. Lá fora ainda ficam o Valdir e o Claudinho, com os copos vazios, mas num assunto que ainda não acabou, e possivelmente nunca acabe. O Xiringa, então, coloca no DVD um vídeo clipe do Pink Floyd, enquanto toma a "saideira" (que ele escondeu na geladeira) e coloca as cadeiras e as mesas no lugar. A noite chegou ao fim.E no Bar do Xiringa é assim mesmo... Um lugar onde tudo pode, mas ninguém jamais ouviu um pagode. Um lugar onde se aquece as madrugadas com cerveja bem gelada. Um lugar onde se espanta a solidão e o freguês, às vezes, tem razão. Um lugar onde as noites são tão interessantes, que nem parece Arroio Grande.
Publicado em 13 de fevereiro de 2009.

ÚLTIMA RODADA... VALENDO!

Um evento que entrou de vez para nossa cultura foi o tal de “bingo”. O bingo é definido pela língua portuguesa como sendo um jogo de azar em que se empregam cartões numerados e pequenos círculos que se tiram à sorte e se vão colocando nos respectivos inscritos nos cartões. Apesar de não simpatizar com o jogo, respeito quem joga e tenho aprendido a valorizar sua importância para a integração social da nossa comunidade. É incrível o que se vê pelas ruas nos domingos que têm bingo. As pessoas atravessam a cidade carregando cadeiras de praia sob um sol de 30° ou até mesmo debaixo de chuva. Tudo pelo prazer de “jogar”. Depois ficam todas aglomeradas, interagindo em algum local (praça, ginásio, campo de futebol, etc.) à espera da hora que alguém vai gritar: “-Bingooooo!” O jogo também gera renda para vendedores ambulantes, taxistas, gráficas, etc. Criando um verdadeiro “micro-mercado-interno” que se move economicamente conforme a frequência dos eventos. Isso que estamos falando apenas dos “bingos a céu aberto”, sem contar os que acontecem em locais particulares todo dia. O jogo se popularizou tanto que praticamente todas as entidades acabaram se rendendo a ele, inclusive as religiosas. Nunca vou esquecer um fato, que me aconteceu cerca de 8 anos atrás, quando uma irmã tentou me vender uma cartela para o “Bingo da Padroeira”. Era uma senhora sorridente e muito carismática, mas como além de não gostar de jogar também sou um debochado assumido, não resisti uma brincadeira com a freira. Estávamos no playground da Praça Maneca Maciel e, após receber a sedutora oferta de uma cartela para ajudar a paróquia, não me contive e soltei: “-Puxa irmã, eu adoraria comprar uma cartela, mas minha religião não aconselha jogos de azar, acho até que isso é pecado!” A coitada ficou vermelha, gaguejou, depois deu um sorriso simpático (como se já fôssemos cúmplices naquele pequeno delito), me piscou o olho e disse: “Ah, mas que mal tem? Deus não se incomoda com a diversão!” Confesso que quase comprei a cartela, na verdade acho até que comprei e dei para alguém, não lembro direito. O fato é que os bingos estão aí, integrados de vez ao nosso cotidiano, com apoio popular, consentimento das autoridades e a bênção de Deus.
Saudades do amigo Osca, que com seu jeito simples e não menos debochado, quando estava cantando bingos volta e meia anunciava um “bicho” (fazendo referência clara ao Jogo do Bicho). “-É ele! O Cachorro! O zero e o cinco, é o cinco do cachorro!” Todo mundo ria e alguns até esqueciam de marcar em suas cartelas. Não pretendo criar polêmica nenhuma com esse texto (não desta vez, por incrível que possa parecer), apenas fazer um breve comentário sobre um hábito de nossa cidade que não parece ser comum a grande maioria dos municípios de mesmo porte. Gente! Vamos ser francos, o pessoal Por Aqui curti demais um joguinho! Vejam a incrível organização dos nossos jogadores de truco, por exemplo, que são reconhecidos por toda a região. E os jogadores de Canastra (também bastante religiosos). E os campeonatos de Play 2 (já tivemos até uma Liga Municipal). E ultimamente até de xadrez. Sem contar as tantas mesas de sinuca espalhadas pela cidade, as filas gigantescas em frente à loteria (todos sonhando em repetir os feitos do Sandro Cunha) e os, ainda clandestinos, “Jogo do Bicho e Caça-níqueis”. Acho que tudo já começa com as bolinhas de gude (que ainda existem) nas escolas e os tantos joguinhos de celular, que hoje todo mundo tem. Tudo isso me faz ter a plena certeza que o primeiro maluco que abrir um cassino Por Aqui, com direito a roleta e tudo mais, vai mesmo ficar rico. O que? Vocês acham que não? Quer apostar? Só jogo se for dinheiro casado! Quanto vale? Quanto?
Publicado em 06 de fevereiro de 2009.

OUTRA VERSÃO DOS FATOS

Se existe uma história infantil que me incomoda é aquela da formiguinha e da cigarra (outro dia vi minhas filhas lendo e quase infartei). Todos já devem conhecer, mesmo assim vou fazer uma breve síntese da trama. A formiguinha vivia trabalhando, enquanto a cigarra só ficava cantando (como se cantar não fosse trabalho). Quando chegou o inverno, a formiga estava tranquila com mantimentos e num lugar abrigado e a cigarra se tornara uma verdadeira indigente. Sempre tive a impressão (para não dizer a certeza) de que esta fábula infantil, além de depreciar os artistas e a importância da música no mundo, também alimenta a ilusão de que excesso de trabalho pode, um dia, levar ao enriquecimento. Mas deixemos estas filosofias e conceitos político-sociológicos de lado e vamos ao que interessa. Resolvi fazer Por Aqui uma pequena “releitura não autorizada” da fábula, ou seja, a minha versão da história para poder vingar as cigarras do planeta (e também os músicos em geral). Seria mais ou menos assim:

A CIGARRA E A FORMIGA
(por Sidney Bretanha)

Era uma vez uma cigarra e uma formiga. A formiga passava o dia trabalhando, carregando mantimentos para passar o inverno enquanto a cigarra apenas cantava alegremente pelos campos. Quando o inverno chegou a formiga trancou-se em seu formigueiro e atravessou a estação fria ali, sozinha em frente a uma enorme TV de plasma e comendo tudo do bom e do melhor que havia armazenado. O máximo que conseguia de contato com o lado de fora do formigueiro era através do orkut e do MSN. Porém, logo cortaram sua internet porque ela não podia sair do formigueiro para pagar o provedor e nem tinha débito em conta autorizado. Ficou, assim, solitária durante os meses de inverno (que para uma formiga parecem anos), somente conversando com as paredes e se alimentando.
Já a cigarra andou pelo mundo, negociando seu canto por comida e abrigo. Cantou em bares, igrejas, restaurantes, bordéis e também pelas ruelas da floresta. Aprendeu muitas coisas na estrada, aperfeiçoou suas técnicas de canto e seu estilo musical. No final do inverno a cigarra tinha conhecido muita gente, conquistou grandes amigos e espalhou pelo mundo a felicidade através de seu cantar. Não ficou famosa, mas estava saudável, repleta de amizades sinceras e vivendo em paz.
A formiga, por sua vez, estava obesa de tanto comer e já não tinha mais forças para carregar mantimentos para o próximo inverno. O excesso de trabalho lhe causara lesões musculares por esforço repetido e ela não tinha nenhum plano de saúde nem era filiada a nenhum sindicato. Entrou numa fila quilométrica da assistência social e a única alegria que lhe restava era a lembrança remota do belo canto da cigarra, que um dia ela havia escutado. Contam por aí que ainda conseguiu uma pequena aposentadoria com o INSS, poucas semanas antes de morrer, abduzida pela língua de um tamanduá-bandeira.

FIM

* Não se esqueçam de contar essa história para seus filhos, alunos e/ou crianças em geral. Quem sabe um dia a Disney (ou até mesmo a Rede Globo), não se interessa pelo assunto... Como diz um ditado local: “Acho brabo!”
Publicado em 23 de janeiro de 2009.

POR ANKH (Uma Cruz para carregar)

Muitas pessoas me perguntam, diariamente, qual o significado daquele negócio no lugar da letra “T” na palavra Bretanha (cabeçalho desse blog), deixo então, Por Aqui, algumas explicações e curiosidades para quem desconhece. O referido símbolo chama-se “Ankh”, sendo também conhecido por Cruz Ansata e era na escrita hieroglífica egípcia o símbolo da vida. Os egípcios a usavam para indicar a vida após a morte. Há muitas especulações sobre o surgimento e sobre o significado do Ankh, mas ao que tudo indica, surgiu na Quinta Dinastia.
Quanto ao seu significado, existem várias teorias. Algumas pessoas veem o Ankh como símbolo da fertilidade, representando um útero
. A alça oval que compõe o Ankh sugere um cordão entrelaçado com as duas pontas opostas que remetem aos princípios feminino e masculino, fundamentais para a criação da vida. O símbolo costuma ser utilizado por bruxos contemporâneos em rituais que envolvem saúde, fertilidade e divinação; ou como um amuleto protetor de quem o carrega. Assim a o Ankh também foi incluído na simbologia da Ordem Rosa-Cruz, representando a união entre o reino do céu e a terra; e encontra-se como uma alusão ao nascente-poente do Sol, simbolizando novamente o ciclo vital da natureza. Numa outra interpretação, também representa o “laço da sandália do peregrino”, ou seja, aquele que quer caminhar, aprender e evoluir.
A Cruz Ansata ainda está presente em personagens e personalidades do mundo, como por exemplo, na aura envolvente do herói místico Dr. Fate (o Senhor Destino conforme a versão brasileira), personagem da Liga da Justiça (DC Comics); nos brincos da personagem Feiticeira Escarlate (MARVEL Comics) que pode ser conferida na versão em desenho animado “X-men evolutions” (ambos pelo SBT) e na maquiagem do ex-guitarrista do grupo Kiss, Vinnie Vincent (na foto).
No final do século XIX
, o Ankh foi agregado pelos movimentos ocultistas que se propagavam, além de alguns grupos esotéricos e as tribos hippies do final da década de 60. O Ankh popularizou-se no Brasil no início dos anos 70, quando Raul Seixas e Paulo Coelho (entre outros) criaram a Sociedade Alternativa. O selo dessa sociedade possuía um Ankh adaptado com dois degraus na haste inferior, simbolizando os "Degraus da Iniciação", ou a chave que abre todas as portas.
Muito bem, não precisam aplaudir, não sou tão conhecedor assim da história do Ankh, é óbvio que apelei para enciclopédias, livros esotéricos, histórias em quadrinhos, revistas de misticismo e, o mais importante de todos esses meios de informação até então, o Google. Espero ter sanado algumas das dúvidas e aproveito para deixar bem claro que não sou um bruxo (eu acho), o “meu” Ankh é apenas uma forma de procurar proteção e retratar a nossa permanente busca por uma vida nova e mais próspera.

Publicado em 16 de dezembro de 2008.

NO MEU MUNDÃO LOCO DE BÃO!

Após ter escrito a coluna “no meu pequeno mundinho” (Meridional, edição do dia 14/11/2008), que brincava com os nomes no diminutivo, várias pessoas se queixaram, exigindo que houvesse o mesmo tratamento com os “aumentativos” locais. Tentei justificar, alegando que os nomes no aumentativo não são tão comuns. Mas logo que usei a expressão “não são tão”, já me ocorreu que talvez eu estivesse equivocado. Então, me pus a pensar e logo lembrei que muitos desses aumentativos já haviam partido e deixado saudades como o Cabeção, o Betão, o Claudião e o Pedrão (borracheiro). Embora ainda existam muitos deles espalhados entre o Mutirão, nos arredores do Barracão e lá pelo Passo do Simão. Batendo um bolão na quadra do Gitão ou nas areias do Arrudão. Na beira do balcão com o Hilton do Corujão ou com o Eraldo do Garajão. Ou simplesmente fazendo compras lá no Nerizão, na fruteira do Alemão, no mercado Ocasião ou no Seu Rui do Casarão.
É, dei braço a torcer, existem mesmo muitos aumentativos Por Aqui. Na política tem o Canecão, o Camarão e o João (Chorê), entre outros. Aliás, “João” é o que não falta. Tem João Valter, João Martins, João Lopes, João Chiacchio, João Acosta, João Lúcio, João Vieira, João Cardozo, João Bizarro, João Carriconde, João Garcez, João Hernandez, João Guillamelau, João Matos, João Valadão e mais um montão (ufa!). Tem também os nossos concorrentes da Evolução (ou do escritório Rincão) e o nosso odiento desafeto o “irmão”. Tem a música do Binigão, a voz do Nicão, os lanches do Marcão e a filosofia do Manuelão.
Daria ainda para registrar o Caminhão, o Sabão, o Mijão, o Paulão, o Melão (do futebol), o Melão (das motos), o Feijão (que não é o meu gato), o Magrão, o Dandão (por onde anda?), o Cezão, o Janjão, e o Mirão (este último possivelmente na prisão).
Vou encerrar antes que alguém pense que é provocação e venha tirar satisfação. No mais lamento a pouca inspiração, mas foi boa a intenção! A todos, um enorme abração!

Publicado em 09 de janeiro de 2009.
*OBS: Na foto uma construção erguida por um João.